Tawden, Dewiza e Mao finalmente começam sua viagem até as entranhas das montanhas de Waur na intenção de alcançar o refúgio de Ansisot, onde vivem seus asseclas. A intenção pioneira era tentar encontrar pistas sobre os pais de Tawden, figuras que ele jamais conhecera. Como se sabe, Tawden foi encontrado no campo de batalha aos pés das montanhas de Waur anos atrás quando era apenas um bebê. Seu crescimento anormalmente acelerado e seus olhos vermelhos ferinos logo denotavam que ele era um tanto diferente dos demais humanos que viviam em Awdarek. Tawden sabia que sua origem possuía raízes de uma árvore diferente daquela que dá frutos de humanos. Movido pela paixão de conhecer suas origens, Tawden e seu fiel amigo Mao encontram pistas de uma mulher que talvez pudesse estar ligada à vida de Tawden, uma demônia de Ansisot que fora escravizada pelo monstro Zarraskozi, nas profundezas de Muyubu. Quem havia lhes dado esta informação era uma mulher chamada Yslin, uma nobre que era amiga de Lady Fairey, filha de Momsé e que também fora mantida cativa pelo monstro.
Assim, a guia herdeira de Roluxo e Jehgro, Dewiza, fora paga para guiar Tawden e Mao até o monasterial das filhas de Ansisot. A viagem é dura e, no percurso, caminhadas árduas e escaladas íngremes se apresentavam uma após a outra. A cada uso da corda, gazuas a ganchos Tawden, Dewiza e Mao sentiam o peso da força das montanhas de Waur, conhecidas por abrigarem inúmeros e inenarráveis perigos assustadores demais para um guarda de Awdarek acreditar se não visse com os próprios olhos. Insetos gigantes habitavam seu fosso e grifos gigantescos voavam seus cumes procurando a carne desavisada para rasgar. As montanhas de Waur eram um misto de apoteose e terror.
Dewiza: Vamos nos apressar, guarda. Não quero passar a noite nessas trilhas.
Tawden: O que há nelas de tão terríveis, Dewiza? Todas essas pedras e depressões parecem tão calmas e pacíficas...
Dewiza: Não sabes o que fala, ímpio de Awdarek.
Tawden: Tenha a bondade de me explicar, conforme sua "vasta" experiência.
Dewiza: O fosso dessas montanhas é habitado por criaturas que fariam sua espinha arrepiar. Aranhas gigantes, lacraias venenosas e toda sorte de criaturas vis esperam por seres de sangue quente para terem uma morte gelada e sem esperança. Enquanto aqui em cima, grifos esperam à solta para destroçar as entranhas dos desavisados que buscam passagem por aqui.
Tawden: É encantador mas não tenho medo nenhum disso. Eu nasci num campo de batalha. Nada por aqui pode me meter medo, minha senhora.
Dewiza: Não é medo, é precaução. Se não por isso, tema os nativos de Npur que são igualmente vorazes com visitantes indesejados.
Tawden: Ainda bem que temos a ti, certo?
Dewiza, com frequência, olhava para o céu e horizontes distantes com olhar apreensivo. Algo a incomodava e Tawden possuía uma vaga ideia do que poderia estar se passando. Horas atrás o falcão de Dewiza havia partido e não mais voltado. Já fazia um tempo considerável desde que a ave havia partido em ronda e desaparecido. Isso claramente incomodava e enchia o coração da bela Dewiza de aflição. Buscando acalentar o sofrimento da moça, o ímpeto heróico de Tawden decide agir enquanto ambos andavam apressados pelas íngremes encostas de Waur.
Tawden: Não te preocupes, ele vai voltar.
Dewiza: ...
Tawden: Sabes o que acho? Acho que precisas de um companheiro como guia. Guias de locais perigosos assim não devem andar sozinhos. Muita gente já morreu fazendo travessias perigosas, pois não?!
Dewiza: Não vou fornicar convosco, se é o que pretendes.
Tawden: Não estava sugerindo isso, senhorita. Ademais, gosto das mulheres de Awdarek. Elas parecem mais "controláveis", se é que me entendes.
Dewiza: Perdão. Aqui as mulheres não costumam ser tratadas com cortesia. Já perdi as contas de quantos clientes ...
Tawden: Voltando à sua águia...
Dewiza: É falcão.
Tawden: Falcão. Seu falcão vai voltar a qualquer instante, sinto isso. No entanto, se quiseres, vamos atrás dele.
Dewiza: Não. Chamar ou procurar por ele agora é perigoso. Ele nos encontrará na vila de Npur. Estamos perto.
Assim, com mais algum tempo de caminhada difícil, ambos chegam até Npur. A vila de Npur era alocada entre os cumes das montanhas do lugar com se estivessem ligadas numa espécie de rede. Pontes e cordas ligavam as cabanas dos nativos e, no centro em meio às pedras vulcânicas, uma grande fogueira aquecia a noite fria e estrelada de Waur. Os nativos se vestiam com chitas e roupas simples. Velhas senhoras carregavam pacotes rudimentares e homens cozinhavam à beira da fogueira. Crianças corriam e brincavam de luta ao redor do fogo e risadas ecoavam pelas encostas irradiando um clima familiar e paz que há muito Tawden não experimentava.
Numa espécie de corredor alto de pedra feito pela própria natureza, estava Tawden e Dewiza ambos debruçados sobre um corrimão de cordas que fazia uma espécie de mezanino onde podia se observar a vila inteira de cima. Acima deles apenas o cume enevoado de Waur e suas estrelas ainda mais brilhantes àquela altura. Mao estava recolhido em sua tenda pois caminhadas e escaladas não eram muito do feitio do mago, acostumado aos livros e conchavos da corte de Ufuhciq. Aventuras eram mais o negócio de Tawden de Merak.
Tawden: Você se coloca dura e fria mas o sentimento pelos nativos é visível em seus olhos.
Dewiza: São um povo simples. Eu gosto mais dessa vida do que da agitação da cidade, para falar a verdade.
Tawden: Não deixe o inimigo ver seu sentimento nos seus olhos ou ele poderá usá-lo contra você. Já vi gente demais morrer por causa disso. Não seja mais uma. Cedo ou tarde os homens podem chegar aqui, tu sabes disso.
É nesse momento que uma velha senhora de nome Podol interrompe a conversa prenunciando bênçãos e rogando boa sorte para Tawden e Dewiza. "A Deusa irá nos proteger, valente guarda!". Tawden sorri levemente com as palavras simples que afagam seu coração. Também, quase no mesmo momento, outra pessoa aborda a senhora. Era um homem chamado Momeah, líder do vilarejo. Ela estava chegando com um grupo de bárbaros que estavam a caçar. Seu olhar intimidador investe contra Tawden, porém, com o toque sutil de Dewiza, o homem pareceu aceitar seu pedido de olhar para que não incomodasse seu convidado. É nesse momento que, vendo que Tawden não era seu inimigo, que ele profere a frase final: "seja bem vindo à vila de Npur. "
Pela manhã, um barulho estranho acorda Tawden de seu sono...



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